Periferia de Lima tem rua com grades e saudades de Fujimori – 21/04/2018 – Mundo

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Enquanto o Peru se destaca pela celeridade com que avançam os processos de corrupção e novas denúncias surgem rapidamente, a poucos quilômetros do centro de Lima os temores são outros. 

As pesquisas mais recentes indicam que a corrupção fica em terceiro ou quarto lugar entre as preocupações dos peruanos. O que inevitavelmente encabeça a lista é a segurança pública.

E se na média da população a segurança é a principal preocupação para cerca de 30%, nos bairros periféricos de Lima, esse índice salta para 70%, segundo pesquisa recente feita pelo instituto Ipsos.

É por isso que, desde os anos 1980-1990, quando a guerrilha do Sendero Luminoso ainda era ativa não só no interior do país mas também nas grandes cidades, os moradores de bairros como La Molina, Ate, Chorrillos, San Juan de Lurigancho e San Martín de Porres começaram a levantar grades na entrada de suas ruas.

O fenômeno se espalhou tão rapidamente, que, em 2004, as autoridades locais decidiram regulamentar a prática.

Segundo a legislação, se um grupo majoritário de habitantes de um trecho de uma rua pretende colocar grades em suas entradas, é necessário pedir autorização à prefeitura e seguir algumas regras.

Uma delas é que as grades têm de estar abertas durante o dia e, de noite, só podem permanecer fechadas se um vigia, contratado pelos moradores ou eleito entre eles, estiver presente.

“Aqui ninguém tem como pagar vigia, então a gente só tranca tudo e pronto. Se alguém quiser entrar depois das 23h, tem de ligar para os três moradores que possuem as chaves”, diz Ximena Alfaro, 34, moradora de Ate.

Em San Juan de Lurigancho, a reportagem encontrou um grupo de adolescentes que reclamavam da medida. 

“Significa que se queremos ficar na rua até mais tarde, tem de ser do lado de dentro da grade. É como crescer preso sem ter cometido crime”, afirma Martín, 14. 

Por outro lado, todos os membros do grupo de cinco jovens tinham uma história para contar de um vizinho ou parente cuja rua não estava bem gradeada ou cuja porta havia sido deixada aberta e os locais foram atacados ou roubados.

“Se o Estado não vem até aqui, como vinha nos tempos do [ex-presidente Alberto] Fujimori, nós temos que nos cuidar sozinhos”, diz o comerciante Álvaro Pizango, 67, a respeito do autocrata que governou o país de 1990 a 2000.

Dados da prefeitura indicam que 40% das ruas de Lima são gradeadas, e a maioria delas fica na periferia.

Não se vê nenhuma rua com grades nos bairros de classe média e alta, como Miraflores, Barranco ou San Isidro.

O que vem preocupando cada vez mais as autoridades é que 91% dessas ruas gradeadas não estão regulamentadas, têm grades fora do padrão ou não contam com vigias instalados para os momentos em que os portões são fechados. 

Isso atrapalha, entre outras coisas, o trânsito de ambulâncias e carros de bombeiros, em casos de atendimentos de emergência.

Embora o recém-concedido indulto a Alberto Fujimori, que cumpria pena por corrupção, divida a população peruana de modo geral, nas periferias das grandes cidades ele é lembrado com nostalgia.

“Naquela época não precisávamos viver encerrados, pois ele enfrentou os delinquentes e o Sendero. Nós nos sentíamos seguros”, diz Karla Valentín, 63.

Os números da Ipsos mostram um temor prevalente da volta da guerrilha. Dos entrevistados, 65% creem que muitos dos grupos criminosos de hoje pertençam a dissidências ou sejam herdeiros do Sendero, e 89% se dizem contra a concessão de indulto humanitário para o líder da guerrilha, Abimael Guzmán, atualmente preso.

Assim como ocorre com Fujimori, os advogados de Guzmán alegam que a avançada idade (ele está com 83 anos, e o ex-presidente, com 79) e uma doença cardíaca justificariam sua libertação.