Neil deGrasse Tyson nega, em rede social, acusações de assédio – 03/12/2018 – Ciência

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O conhecido escritor e astrofísico americano Neil deGrasse Tyson nega as acusações de assédio sexual que sofreu por parte de três mulheres relativas a eventos ocorridos de 1984 até o presente. 

DeGrasse, 60, que construiu uma carreira de sucesso na televisão e em seus livros nos quais explica e populariza a ciência, havia permanecido em silêncio sobre as acusações até o momento.

Mas no fim de semana respondeu às acusações em uma longa postagem no Facebook.

“Por vários motivos, a maioria com razão, alguns injustificadamente, os homens acusados de assédio sexual no contexto do ‘MeToo’ já são considerados culpados pelo julgamento da opinião pública. As emoções tomam a frente do devido processo legal, pessoas tomam lados e começa a guerra nas redes sociais”, diz o pesquisador no início da postagem.

DeGrasse, que se autodefiniu como um marido carinhoso e alguém que, como cientista e educador, está a serviço do público. “Acusações podem prejudicar a reputação e o casamento de um homem. Às vezes de forma irreversível”, diz.

No primeiro caso contra ele, uma mulher alegou que deGrasse a drogou e estuprou quando ambos eram estudantes de pós-graduação na Universidade do Texas, em 1984. 

A mulher disse que desmaiou depois de tomar uma bebida dada por ele e em seguida acordou nua na cama dele.

Sobre o caso, o astrofísico afirma ter tido um breve relacionamento com a mulher —que hoje se apresenta com outro nome— durante a pós-gradução. “Os momentos de intimidade foram poucos e todos na casa dela, mas não havia química”, diz o cientista. 

DeGrasse diz não ter visto muito a mulher após a breve relação. Voltou a vê-la, alguns anos depois, grávida, momento no qual ele ficou sabendo que ela não havia completado a pós-graduação. “Mais de 30 anos depois, conforme minha visibilidade dava um salto, li uma postagem em um blog me acusando de drogar e estuprar uma mulher”, diz.

O cientista afirma também que, segundo as postagens nesse blog, “a alegação de sedação e estupro vêm da presunção do que teria acontecido em uma noite da qual ela não se lembra”.

No segundo caso, em 2009, contou que uma colega se aproximou dele em uma conferência para pedir uma foto.

A mulher tinha uma tatuagem do sistema solar que subia por seu braço. DeGrasse diz que, mesmo não se lembrando de procurar por Plutão próximo ao ombro da mulher, seria algo que ele realmente faria em uma situação como essa. O cientista explica ter uma história profissional com o rebaixamento da condição planetária de Plutão, ocorrido em 2006, e por isso tem interesse em tatuagens relacionadas ao assunto.

“Como qualquer fã pode atestar, eu fico eufórico quando percebo que a pessoa usa algum adereço cósmico vistoso, como roupas, joias ou tatuagens que retratem o universo”, diz. “E faço do ornamento o ponto focal da foto.”

O pesquisador diz que só agora ficou sabendo que a colega achou o comportamento bizarro e que se soubesse disso no momento em que aconteceu, pediria desculpa, assim como faz na postagem em questão. “Essa jamais foi minha intenção e lamento profundamente tê-la feito se sentir dessa maneira”, afirmou.

A terceira acusação data de 2018, durante as filmagens dos programas que o cientista apresenta. Uma assistente de produção foi designada para acompanhar  deGrasse, detalhando sequências que seriam filmadas e também servindo como motorista. 

DeGrasse diz que, pelo tempo que acabavam passando juntos, desenvolveram uma amizade com conversas sobre “cuidar de pais que estão envelhecendo, relações com irmãos, vida no ensino médio e faculdade, hobbies, corrida, gênero e por aí vai”. 

“Ela é talentosa, afetuosa e amigável, traços excelentes para motivação em uma produção feita sob grande pressão. Praticamente todos que ela conhece recebem diariamente abraços de boas-vindas ao chegar para o trabalho.”

Os abraços da assistente eram recusados por  deGrasse, que no lugar oferecia um aperto de mão. “Em algumas ocasiões, eu desajeitadamente disse: ‘se eu te abraçar, eu posso querer mais.’ Minha intenção era expressar minha contida, mas genuína afeição por ela.”

Na última semana de filmagem, o pesquisador convidou a assistente para comer queijos e tomar vinho após ela deixá-lo em casa. Ela aceitou e, duas horas depois, estava a caminho de casa, diz  deGrasse.

Mais tarde, “ela veio ao meu escritório para me dizer que a noite de queijos e vinho a deixara assustada. Ela viu o convite como uma tentativa de seduzi-la, mesmo ela estando sentada do outro lado da mesa e as conversas tendo sido do mesmo tipo que já havíamos tido”, diz na postagem. “Eu não toquei nela até um aperto de mão na despedida.”

O astrofísico, contudo, diz que o aperto de mão foi diferente, um que ele teria aprendido com um índio idoso em uma reserva junto ao Grand Canyon. “Você estende seu polegar durante o aperto de mão para sentir a energia vital da pessoa —o pulso. Eu o uso com pessoas com quem desenvolvo novas amizades.”

DeGrasse diz ter pedido desculpas para a assistente assim que ela contou sobre o desconforto e que o último gesto dela, ao deixar a produção, foi oferecer um abraço, o qual ele aceitou dessa vez.

“Eu fui acusado, então por que acreditar em qualquer coisa que eu fale?”, afirma, ao fim da postagem. “Isso nos traz à importância de investigações independentes.” A Fox Broadcasting e a National Geographic, que exibem o popular programa de divulgação científica apresentado por deGrasse, “Cosmos”, informaram que investigarão os casos. “O que é bem-vindo”, completa o cientista.

O Museu Americano de História Natural, em Nova York, onde DeGreasse dirige o Hayden Planetarium, também investiga as alegações, relatou a The New Yorker.