História da Revolução Paulista de 1924 emerge no rio Paraná – Brasil

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Airton Donizete
MARINGÁ (PR)

Ismael Alves Esmanhoto, 51, pequeno empresário em Santa Isabel do Ivaí, no noroeste do Paraná, comprou um barco que um pescador retirara do rio Paraná. Apaixonado por história, começou a pesquisar a origem da embarcação e descobriu que pertencera à Revolução de 1924.

O advogado e professor de história Getúlio Braz Anzilieiro, 71, de Nova Londrina, a 65 quilômetros de Santa Isabel do Ivaí, confirmou a origem do barco, retirado em 2009. Ele disse que poderia haver outros do mesmo porte naufragados no local em que o encontraram nas proximidades da divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul, a 40 quilômetros de Porto Rico.

Com equipamentos de mergulho e ajudantes, Esmanhoto foi ao local e achou mais um barco, idêntico ao primeiro. De estruturas metálicas, apelidados de chatas, ambos têm 16 m de comprimento e 4 m de largura. No momento da retirada, estavam a cerca de 7 m de profundidade. Ele disse acreditar que haja mais barcos no local.

Anzilieiro disse que os revoltosos da Revolução Paulista de 1924, na descida do rio Paraná, se confrontaram com soldados legalistas e jagunços comandados por um bandoleiro chamado Quincas Nogueira.

Camuflados nas margens do rio, eles dispararam contra os rebeldes, que vinham de São Paulo. “Não há fontes seguras, mas [estima-se que] centenas de pessoas morreram nesse trecho de rio”, afirmou.

Juarez Távora, um dos comandantes dos revoltosos, conta em suas memórias “Uma vida e Muitas Lutas” que “uma força governista de cerca de 200 homens, comandada pelo capitão Dilermando Cândido de Assis, estava entrincheirada no porto São José, na margem paranaense, logo abaixo da foz do Paranapanema [que desemboca no Paraná]”.

Ele afirma que os rebeldes, na descida do rio, se dividiram: parte seguiu por terra, a pé, margeando o leito do rio, e parte em barcos. Távora descreve que a tropa governista se entrincheirou na outra margem do Porto São José, enquanto a artilharia afundaria, com tiros diretos, barcos ancorados no porto.

Para Anziliero, não há dúvida de que os barcos pertenceram à Revolução Paulista. A hipótese mais aceita é de que os rebeldes desceram o Paraná para se juntar a Luiz Carlos Prestes em Foz do Iguaçu, dando origem à Coluna Prestes. “Infelizmente, é um assunto pouco estudado”, disse, ressaltando o apelido da Revolução de 1924, chamada de “Revolução Esquecida”.

Balas encontradas em embarcação afundada no rio Paraná (Ismael Esmanhoto)

O professor critica a maneira como os barcos foram retirados do rio, sem acompanhamento de especialistas em resgates de objetos históricos submersos. “Infelizmente, perdeu-se muita coisa que ficou presa na areia no fundo do rio.”

Desde que foram retirados do rio Paraná, em 2009, os barcos da Revolução de 1924 permanecem num terreno da Prefeitura de Porto Rico cobertos por uma lona. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) impediu que Esmanhoto ficasse com eles.

O MPF (Ministério Público Federal) acionou o órgão exigindo restauração das embarcações e artefatos históricos e a construção de um espaço para abrigá-los.

Caso não cumpra as exigências, o MPF propõe multa diária de R$ 1.000 ao Iphan, que recorreu da ação. Balas, talheres, ferramentas e até pedaços de ossos humanos que estavam no interior dos barcos ficaram sob a guarda de Esmanhoto.

O Iphan os catalogou, e o MPF o nomeou fiel depositário dos achados. “Esperamos que essa questão jurídica se resolva porque não temos condições de abrigar e conservar as embarcações naquele local por tanto tempo”, disse o secretário de Turismo de Porto Rico, Christian Costa Begosso, 35.

A REVOLTA

A Revolução Paulista de 1924 foi a segunda maior revolta tenentista, que se estendeu de 5 a 28 de julho daquele ano. Os tenentes que dela participaram deram origem à Coluna Prestes, que marchou em torno de 25 mil quilômetros por várias partes do Brasil, chegando à Bolívia.

A crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e São Paulo desagradaram aos militares. Era uma luta contra o fim da República Velha, cujas principais reivindicações eram voto secreto, reformas no ensino público, poder político ao exército, fim da corrupção e destituição do presidente Artur Bernardes (1875-1955).

A revolta contou com a participação de mil militares e, para se proteger, pelo menos 300 mil pessoas se deslocaram de São Paulo durante o conflito. Os revoltosos, vencidos, marcharam rumo ao Sul do Brasil. Em Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, se encontraram com oficiais gaúchos liderados por Prestes.