Flertando com o desconhecido – 03/06/2018 – Marcelo Gleiser

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Muita gente acha que a ciência é uma atividade sem emoções, destituída de drama, fria e racional. Na verdade, é justamente o oposto. A premissa da ciência é a nossa ignorância, nossa vulnerabilidade em relação ao desconhecido, ao que não sabemos.

A ciência é um flerte com o não saber, com o desconhecido que nos cerca. Existe sempre uma sensação de insegurança, de não termos certeza se estamos indo na direção certa. Nos casos mais comuns, quando experimentos revelam novos aspectos da natureza que sequer haviam sido conjecturados, a enorme surpresa, a sensação de tatearmos no escuro, pode levar ao desespero.

E agora? Se nossas teorias não podem explicar o que estamos observando, como ir adiante?

Nenhum exemplo na história da ciência é mais revelador desse drama do que o nascimento da física quântica, que descreve o comportamento dos átomos e das partículas subatômicas, e que essencialmente está por trás de toda a revolução digital que rege a sociedade moderna.

Ao final do século 19, a física estava com muito prestígio. A mecânica de Newton, a teoria eletromagnética de Faraday e Maxwell, a compreensão dos fenômenos térmicos, tudo levava a crer que a ciência estava perto de chegar ao seu objetivo final, a compreensão de toda a natureza.

Ao menos assim pensavam vários físicos eminentes. Grande engano. Para a surpresa de muitos, experimentos revelaram fenômenos que não podiam ser explicados pelas teorias da chamada era clássica.

Não se entendia porque corpos aquecidos acima de certas temperaturas brilhavam com aquela luz avermelhada que vemos nas brasas de uma boa fogueira. Não se entendia porque a luz violeta podia tornar uma placa metálica eletricamente carregada enquanto a luz amarela nada fazia, deixando a placa neutra. Não se sabia se átomos eram ou não entidades reais, já que a física clássica previa que seriam instáveis, com os elétrons espiralando em direção ao núcleo.

Gradualmente, ficou claro que uma nova física era necessária para lidar com o mundo do muito pequeno. Mas que física seria essa? Ninguém queria mudanças muito radicais. Ou quase ninguém.

A primeira ideia da nova era veio de Max Planck. Em 1900, propôs que átomos recebem e emitem energia em pequenos pacotes, que chamou de “quanta”. Antes disso, todos achavam que qualquer sistema emitia e recebia energia continuamente, como quando aquecemos um bule de água. 

Eis como Planck relatou seu estado emocional ao propor a ideia do quantum: “resumidamente, posso descrever minha atitude como um ato de desespero, já que por natureza sou uma pessoa pacífica e contrária a aventuras irresponsáveis…quaisquer que fossem as circunstâncias, qualquer que fosse o preço a ser pago, eu tinha que obter um resultado positivo”.

O uso da palavra “desespero” é revelador. Planck viu-se forçado a propor algo de fundamentalmente novo, que ia contra tudo o que havia aprendido até então e que acreditava ser correto sobre a natureza. Abandonar o velho e propor o novo requer muita coragem intelectual. E muita humildade, algo que faltava aos que achavam que a física estava quase completa.

Planck o fez pois sabia que a física tinha como missão explicar o mundo natural, mesmo que a explicação contrariasse seus preconceitos. Os experimentos não deixavam dúvida de que algo de novo era necessário. Planck, um modelo da integridade de um cientista, sabia que seu compromisso com a natureza era o único que importava.

Nunca devemos supor que nossas ideias tomam precedência sobre o que a natureza nos diz. A ciência é um jogo de pega-pega, e a natureza está sempre na nossa frente.

Como o exemplo de Planck, existem muitos outros cientistas que, deparados com resultados misteriosos e surpreendentes, lutam para propor e aceitar ideias que vão contra o que acreditam ser correto.

Talvez essa seja a lição mais importante da ciência: a natureza nem sempre corresponde aos nossos anseios e precisamos encará-la com a humildade de quem sabe muito pouco.

foto: um daqueles modelos de sistema solar mecânicos?