Como a cara de Luzia, revelada há 20 anos, mudou a pré-história do Brasil – 08/04/2018 – Reinaldo José Lopes

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O passado remoto do Brasil não é mais como era antigamente. Devemos uma parte considerável dessa transformação sobre o que achávamos que sabíamos a respeito de nossa pré-história a uma moça mineira cujo rosto famoso acaba de completar 20 anos: Luzia.

Repare que eu disse “rosto”. A jovem em questão tinha mais ou menos a idade mencionada acima quando morreu, mas isso já faz mais de 11 mil anos, o que permite classificar Luzia como a mulher mais antiga das Américas.

Foi no começo de abril de 1998 que uma equipe de cientistas liderada pelo bioantropólogo Walter Neves, da USP, divulgou num encontro científico nos EUA o resultado de uma análise morfológica do crânio de Luzia, descoberto nos anos 1970 na região de Lagoa Santa (MG). As características cranianas da moça lembrariam as dos atuais africanos e aborígines da Austrália, afirmavam Neves e companhia.

Ou seja, “a primeira brasileira não era uma índia”, como dizia o título da reportagem sobre o estudo assinada pelo meu saudoso colega Ricardo Bonalume Neto (1960-2018) nesta Folha.

A aparência “negra” da garota de Lagoa Santa seria sacramentada em definitivo com a reconstrução artística de seu rosto feita em 1999 pelo antropólogo forense britânico Richard Neave —um busto hoje retratado em tudo quanto é livro didático de história deste país.

Escrevo esta coluna para tentar contextualizar o impacto de Luzia nas últimas décadas, e o que acabei de descrever é, claro, o elemento literalmente mais visível desse impacto: a criação de um ícone. Raríssimas são as pessoas capazes de dizer de bate-pronto quando os seres humanos chegaram à América do Sul, por exemplo, mas o rosto inconfundível da moça de 11,5 mil anos ainda tem um “recall” impressionante.

Vale ressaltar que a morfologia “africana” de seu crânio está muito distante de ser um caso isolado. Neves e outros pesquisadores examinaram dezenas de esqueletos antigos da região de Lagoa Santa, bem como alguns de regiões como a Colômbia e o México, e confirmaram a presença desses traços em todos eles.

Isso significa que tivemos uma migração pelo Atlântico vinda da África, ou a chegada de australianos por aqui, atravessando o Pacífico? Provavelmente não: a aparência de Luzia refletiria a “humanidade 1.0”, de origem africana, mas que precisou avançar Ásia adentro e atravessar o estreito de Bering para chegar ao nosso continente.

A garota mineira foi um dos raros sucessos de marketing (no bom sentido) da ciência brasileira. Os pesquisadores da USP conseguiram aproveitar seu status de ícone para que um projeto de pesquisa de longo prazo fosse desenvolvido no interior mineiro (e eles continuam escavando por lá ainda hoje).

Essa visão menos imediatista foi recompensada com a descoberta de 50 sepultamentos antigos no abrigo calcário da Lapa do Santo, que revelaram rituais complexos (e, do nosso ponto de vista, macabros) realizados com os cadáveres pelo povo de Luzia. Cortes, queima, pintura com pigmentos e mistura de partes de um indivíduo com ossos de outro traçam um quadro de intensa proximidade física e simbólica dos vivos com os mortos há 10 mil anos.

Agora, os herdeiros científicos de Neves se preparam para investigar os antigos habitantes de Lagoa Santa com a ajuda do DNA. Mais surpresas devem vir por aí. Luzia vive.