China busca reforçar laços com Coreia de Norte antes de reunião com Trump – 03/05/2018 – Mundo

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Enquanto a Coreia do Norte realiza reuniões de cúpula com seus arqui-inimigos —primeiro a Coreia do Sul e em breve os Estados Unidos—, a China corre para não perder influência. 

Seu ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, retornou na quinta-feira (3) a Pequim depois de dois dias na capital norte-coreana, Pyongyang, onde se reuniu com o líder do país, Kim Jong-un, reforçando a posição da China como a melhor amiga do Norte.

A China mantém uma vantagem econômica substancial (compra mais de 80% das exportações norte-coreanas), mas na concorrência estratégica intensificada entre ela e os EUA é preocupante que Kim esteja usando essa rivalidade para reduzir a dependência da China, antigo benfeitor de seu país. 

Uma das tarefas de Wang era tentar impedir que Kim se incline para os EUA sob o presidente Donald Trump, segundo alguns especialistas chineses.

“Pequim provavelmente gostaria de garantir que Pyongyang não desenvolverá um relacionamento mais estreito com Washington do que com Pequim”, disse Zhao Tong, um especialista em Coreia do Norte no Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global, em Pequim. 

“A visita do ministro das Relações Exteriores chinês, a primeira em 11 anos, parece fazer parte desse esforço.”

Pequim suspeitava de que Washington talvez concordasse em pôr de lado seus desacordos nucleares com a Coreia do Norte e aceitasse as capacidades nucleares do Norte se servissem para conter a China, de acordo com ele.

Wang pode ter passado uma mensagem cuidadosa, lembrando o Norte de que a China foi sua verdadeira amiga apesar do caminho duro nos últimos seis anos desde que Kim chegou ao poder, disse Xia Yafeng, um historiador chinês na Universidade de Long Island (EUA). 

“Wang Yi tinha uma missão: coordenar-se com os norte-coreanos sobre como conversar com Trump”, disse ele. 

“Ele pode aconselhar os norte-coreanos, mas não pode ameaçá-los. Ele pode dizer: ‘Tomem cuidado quando falarem com Trump. Nós estaremos sempre ao seu lado’.”

A China seguiu a contragosto a exigência de Washington no ano passado de que apoiasse as sanções da ONU destinadas a negar ao Norte reservas cambiais críticas da venda de carvão, minérios, pescado e vestimenta.

Mas o desejo de Pequim de punir a economia norte-coreana provavelmente está vacilando, disse Zhao. 

“Posso imaginar a China tomando medidas adicionais para melhorar os laços com a Coreia do Norte”, disse Zhao. Estas incluiriam trabalhar para conectar o Norte às redes rodoviárias e ferroviárias no nordeste da Ásia e incluir o país em sua Iniciativa Cinturão e Estrada.

Já há sinais de que a China está tentando atenuar algumas das restrições econômicas. Empresários na região nordeste da China, que faz fronteira com a Coreia do Norte, dizem que alguns trabalhadores norte-coreanos estão retornando à China com vistos de curto prazo, e que esperam que o comércio se reforce em breve.

“Eu consigo imaginar a China já iniciando estudos de opções para aumentar a cooperação econômica com a Coreia do Norte em áreas que não violariam as atuais resoluções do Conselho de Segurança da ONU”, disse Zhao.

Pequim ficou irritada e surpresa ao ser excluída de vários itens na declaração conjunta que as Coreias do Norte e do Sul emitiram na última sexta-feira (27), ao final de sua reunião de cúpula. 

As duas Coreias disseram que iniciariam negociações com Washington para um tratado que ponha formalmente fim à guerra da Coreia, que assolou a península de 1950 a 1953.

A declaração mencionou conversas “trilaterais ou quadrilaterais”. Se forem “trilaterais”, incluirão as Coreias do Norte e do Sul e os EUA, mas não a China, que enviou milhões de soldados para lutar ao lado do Norte na guerra. A China retirou todas as tropas em 1958.

“Os chineses ouviram dizer que foi a Coreia do Norte que pediu que as negociações sejam quadrilaterais”, disse Paul Haenle, diretor do Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global.

Além disso, a China não foi convidada a enviar observadores à planejada destruição do sítio de testes nucleares Punggye-ri, na Coreia do Norte, no final deste mês. 

Kim disse que convidaria especialistas sul-coreanos e americanos para testemunhar o fechamento, gesto que, segundo autoridades americanas, teria pouco impacto nos programas nuclear e de mísseis balísticos do Norte.

“O local de testes é próximo da fronteira da China”, disse Haenle. “Os chineses ficaram incomodados porque a China é uma potência nuclear, e a Coreia do Sul, não.” 

Apesar desses problemas, a visita do ministro das Relações Exteriores foi simbolicamente importante, segundo Xia. 

No auge do relacionamento entre a China e a Coreia do Norte, quando o avô de Kim, Kim Il-sung, estava no poder, eram frequentes as visitas de alto nível entre os dois países. O avô visitou a China muitas vezes, disse Xia. 

Até o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, fez sete viagens entre 2000 e 2011.

A parada de visitas parou depois que o jovem Kim assumiu o poder e descarrilou as relações com a China ao ordenar a morte de autoridades coreanas perto de Pequim. 

Kim fez uma visita de surpresa a Pequim no final de março, aparentemente por iniciativa própria, manobrando de maneira que o fez parecer menos subserviente e mais equivalente.

A reunião de Trump com Kim provavelmente ocorrerá na Zona Desmilitarizada (DMZ) na fronteira entre as duas Coreias, segundo o presidente americano. 

Alguns diplomatas especulam que os dois líderes poderão se encontrar no lado norte da DMZ, traçando uma distinção da cúpula na semana passada no lado sul-coreano e satisfazendo o desejo de dramaticidade de Trump.

O líder chinês, Xi Jinping, deverá ir a Pyongyang depois da reunião Trump-Kim. 

Um dos deveres do ministro das Relações Exteriores foi confirmar os detalhes da visita de Xi, segundo analistas chineses.