Arábia Saudita usou tortura e coerção em suposto combate à corrupção – 13/03/2018 – Mundo

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Empresários antes considerados gigantes da economia da Arábia Saudita hoje usam tornozeleiras eletrônicas. Príncipes que chefiavam forças militares e apareciam em revistas são monitorados por guardas que não estão sob seu comando. Famílias que antes viajavam em jatinhos agora não têm como acessar suas contas bancárias. Mesmo mulheres e filhos foram proibidos de viajar.

Em novembro, as autoridades sauditas prenderam centenas de empresários, muitos deles membros da família real, no hotel cinco estrelas Ritz-Carlton de Riad, dentro do chamado combate à corrupção.

A maioria dos empresários foi solta desde então, mas não se pode dizer que esteja vivendo em liberdade. Em lugar disso, algumas das figuras mais influentes da Arábia Saudita estão convivendo com o medo e a insegurança.

Durante meses de cativeiro, muitos deles foram sujeitos à coerção e a maus-tratos. Nos primeiros dias da repressão, pelo menos 17 detentos foram hospitalizados por agressões físicas, e um deles morreu em custódia.

Para conseguirem sair do Ritz, muitos dos detidos não apenas entregaram quantias enormes de dinheiro como transferiram para o Estado imóveis de alto valor e participações acionárias em empresas –e tudo fora de qualquer processo legal claro.

Enquanto o arquiteto da repressão, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, 32, conhecido pela sigla MBS, se prepara para viajar aos EUA, autoridades do regime chamam a atenção para suas reformas: a autorização para mulheres dirigirem e seus planos de ampliar oportunidades de entretenimento e de atrair investimentos do exterior.

Elas rejeitam as alegações de abusos e descrevem o episódio do hotel Ritz de Riad como um processo legal e ordeiro que chegou ao fim.

Não é de hoje que a corrupção é endêmica na Arábia Saudita. Acreditava-se que muitos dos detidos teriam roubado dos cofres públicos. Mas a monarquia, citando leis de privacidade, se nega a especificar as acusações feitas a indivíduos e quais foram condenados ou inocentados.

Segundo três pessoas ligadas à família do rei Abdullah, morto em 2015 e meio-irmão do rei Salman, pai de Mohammed, parte da campanha parece ter sido movida por uma vendeta familiar, com o príncipe herdeiro pressionando seus primos a devolverem bilhões de dólares que eles consideram ser sua herança.

E, embora o governo tenha dito que a campanha aumentaria a transparência, as ações têm sido realizadas em segredo. A maioria das pessoas entrevistadas exigiu anonimato para falar.

Em comunicado divulgado no domingo para anunciar a criação de departamentos de combate à corrupção na Procuradoria-Geral, o regime disse que Salman e Mohammed “querem erradicar a corrupção com o máximo de força e transparência”.

 

As evidências dos maus-tratos estão demorando a emergir, mas representantes de dois governos ocidentais disseram que os relatos são dignos de crédito.

Um caso envolveu um oficial militar saudita que morreu em custódia. Uma pessoa que viu o corpo do general Ali al-Qahtani disse que seu pescoço estava torcido, como se tivesse sido quebrado, enquanto seu corpo apresentava hematomas e distensões. A embaixada saudita em Washington afirmou que as alegações não têm fundamento.

Qahtani não era rico, de modo que seu valor como alvo do combate à corrupção é questionável. Mas era alto assessor do príncipe Turki bin Abdullah, filho de Abdullah e ex-governador de Riad, e os interrogadores podem tê-lo pressionado para obter informações sobre seu chefe.

Qahtani foi levado ao hospital em novembro para fazer exames e tratamento. Um médico informado sobre sua condição disse que ele tinha sinais de espancamento.

Ele foi levado de volta ao hotel para novos interrogatórios. Mais tarde, em um hospital militar, foi declarado morto. Riad não ofereceu nenhuma explicação pública da morte do general.

CONFISCO

Seja qual for a pressão aplicada no Ritz, o objetivo foi conseguir que os detidos entregassem o controle de seus bens. O procurador público do reino disse em janeiro que o regime fechara acordos no valor de US$ 106 bilhões.

Outros funcionários esperam que até o final de 2018 o processo renda US$ 13 bilhões em dinheiro vivo. Não há provas de que o governo tenha confiscado investimentos estrangeiros no país nem que tenha conseguido apreender ativos sauditas no exterior.

Um dos alvos são os bens dos mais de 30 filhos de Abdullah, que receberam de sua fundação US$ 340 milhões, para os homens, e US$ 200 milhões para cada mulher.

O príncipe herdeiro quer recuperar esse dinheiro, que ele acredita que foi tirado ilegalmente de uma entidade beneficente. Mas os filhos do ex-monarca consideram que o dinheiro é sua herança.

O administrador da fundação é Turki, que continua preso. A maioria de seus irmãos foi proibida de sair do país. Outros que estão fora do país têm medo de voltar.


Ben Hubbard
, David D. Kirkpatrick
, Kate Kelly
e Mark Mazzetti

Tradução de CLARA ALLAIN