Aos quase 90, roteirista de Zé do Caixão do interior paulista diz enfim viver de livro graças à internet – Brasil

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Régis Martins

RIBEIRÃO PRETO (SP) O escritor e roteirista Rubens Francisco Lucchetti diz que gostaria de ter nascido na Inglaterra vitoriana do século 19. Arredio às novidades tecnológicas, afirma que é um homem do passado.

“Sou um saudosista assumido”, afirma, às vésperas de completar 89 anos, no mês que vem, o homem que escreveu para diretores como José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e Ivan Cardoso (“As Sete Vampiras” e “O Segredo da Múmia”). Seu trabalho já foi assunto de uma reportagem da Folha e de perfil do jornal americano The New York Times, em 2014.

O escritor e roteirista Rubens Francisco Luchetti, 88, em sua casa em Serrana (SP) – Foto: Régis Martins/Folhapress

Curiosamente, sua vida mudou graças a uma invenção bem atual: a internet. Por causa das redes sociais, a obra do roteirista composta por livros de terror, mistério e crime foi redescoberta.
Luchetti, que vive em Jardinópolis, no interior paulista, há cerca de três décadas, conta que foi obrigado a criar um perfil porque era a única forma de conseguir vender seus livros que começaram a ser publicados por uma editora carioca a partir de 2014.

Graças a um acordo, as vendas das obras ficam a cargo do autor, mas ele diz que a margem de lucro é maior. “Foi algo muito vantajoso pra mim. Pela primeira vez, vivo dos livros que me orgulho de ter escrito”.

O roteirista em imagem de 1956, em Ribeirão Preto – Arquivo Pessoal

Nem sempre foi assim. Durante décadas, Lucchetti escreveu sob encomenda. Apesar de renegar essas obras, foi graças a esse passado prolífico que alunos da USP publicaram em sua homenagem

“O Homem dos Mil Livros”, também em 2014. Passados quatro anos, três angioplastias e um AVC, sua carreira renasceu.

“Há anos eu não publicava nada e de repente, tudo mudou. Minha vida virou uma ficção”, diz o autor, que, ainda assim, manteve os velhos hábitos.

As postagens nas redes, por exemplo, são ditadas ao filho Marco Aurélio que as escreve diariamente. “Computador é muito complicado pra mim”.

Apesar da saúde frágil, já prepara o lançamento de mais um livro da coleção “R.F. Lucchetti”, da editora Corvo. “O Dobre Sinistro” é a nona publicação de um total de 15 livros de terror e suspense.
“Cada livro dessa coleção é como um quebra-cabeça, porque estão interligados”, afirma o escritor, que, além dos títulos da coleção, já escreveu outras cinco obras de ficção para a editora.

“Ele não para, reviso os textos dele diariamente, além das postagens nas redes que chegam a ser três ou quatro por dia”, informa o filho Marco Aurélio.

O sucesso virtual de Luchetti levou seus posts a serem reunidos num livro que vai ser lançado no início do ano que vem pela editora Clepsidro, de São Paulo. “Desvendando R.F. Lucchetti – Memórias, Postagens e Fotobiografia” organizado pelo jornalista Rafael Spaca, reúne fotos e textos publicados em seu perfil desde 2014.