Ação militar liderada por Trump pega bem, mas tem pouco efeito prático – 14/04/2018 – Mundo

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​O tom das bravatas subiu na mesma medida em que baixou a poeira dos ataques ocidentais à Síria. O americano Donald Trump falou de “missão cumprida” e o russo Vladimir Putin, sobre “um ato de agressão”.

Na prática, contudo, a ação de sexta serviu para ambos os lados exercitarem suas retóricas, sem nenhum efeito militar sobre a realidade da guerra civil síria.

Do lado americano, Trump poderá dizer que enviou um sinal forte ao ditador Bashar al-Assad acerca do uso de armas químicas.

Pega bem no Ocidente e se encaixa na descrição de Putin, patrono de Assad, como um ator perigoso que inclusive envenena seus ex-espiões.

De quebra, Trump ganha apoio em um momento de grande desgaste e afasta a fama de proximidade com o Kremlin. O mesmo reforço político ocorre com a frágil Theresa May, primeira-ministra britânica.

Para Putin, a pressão contínua é favorável à sua imagem de defensor férreo dos interesses russos. Ele não foi reeleito no mês passado com 77% dos votos apenas numa fraude.

Ele é ajudado pelas evidentes falhas do Ocidente em provar suas acusações a Assad, já que não houve investigação independente sobre o suposto ataque químico que justificou o bombardeio ou evidência de que os alvos destruídos guardavam armas proibidas.

Isso reforça a versão russa, trabalhada desde março, de que o ataque foi forjado. Exceto em um exercício de maquiavelismo extremo ou mentira pura, é uma narrativa crível.

Assad não é santo e já usou armas químicas no passado, mas é fato que não havia sentido para o ditador usar esse recurso com a vitória assegurada contra os rebeldes locais.

Contra o presidente russo, há o crescente cerco internacional, em especial com as novas sanções americanas a figuras de proa de sua economia.

O cuidado de ambos os lados para evitar um choque militar na Síria, por outro lado, indica que ainda há racionalidade na discussão.

Isso dito, restará ver se Putin dobrará a aposta de defesa de Assad ou se irá incluir sua eventual remoção do poder nas negociações que conduz com Turquia e Irã sobre o futuro sírio.