A incrível história dos trigêmeos idênticos separados no nascimento – 19/07/2018 – Ciência

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Robert, David e Eddy nasceram em um subúrbio de Nova York em julho de 1961.

Foram separados ao nascer e entregues à adoção para três famílias diferentes. Eles cresceram sem saber que eram gêmeos idênticos, até que, por uma coincidência, acabaram se conhecendo.

Aos 19 anos, Robert Shafran foi à universidade para o primeiro dia de aula quando se deu conta de que vários estudantes o estavam confundindo com outra pessoa. Eles o chamavam de Eddy Galland.

Por curiosidade, Robert decidiu contatar Eddy. “Os olhos dele eram os meus olhos”, diz Robert ao se lembrar do momento em que viu o irmão.

A última peça do quebra-cabeças (ou do trio de gêmeos) surgiu quando David Kellman viu a fotografia dos dois estudantes num jornal e percebeu que ele também era a cara dos personagens daquela reportagem.

A história é retratada em detalhes no documentário “Three Identical Strangers” (Três Desconhecidos Idênticos), filme de Tim Wardle, atualmente em cartaz nos Estados Unidos.

Separados em experimento científico

O documentário revela que, quando os três jovens se viram pessoalmente pela primeira vez, ficaram muito emocionados.

“Tudo era novidade, tudo era celebração. Pela primeira vez, nadávamos juntos no mar ou andávamos juntos de montanha russa”, disse David à BBC, ao explicar como era diferente a sensação de experimentar lazeres do dia-a-dia junto com os “novos” irmãos.

“A gente se sentia como crianças, porque não tivemos uma infância juntos. Foi muito divertido.”

O trio se converteu num fenômeno midiático na década de 1980. Chegou a aparecer em vários programas de televisão e numa cena de um filme estrelado por Madonna. Chegaram até a abrir um restaurante chamado “Triplets”.

Experiência secreta… E polêmica

Tudo parecia ir bem até vir à tona a informação de que a separação não foi acidental. Muito pelo contrário: os jovens eram parte de um experimento social arquitetado secretamente.

A agora extinta agência de adoção Louise Wise designou uma família diferente a cada recém-nascido, para que as crianças participassem de um estudo desenvolvido pelo Child Development Center, um instituto que mais tarde se fundiu à organização Jewish Board.

As famílias não teriam sido informadas de que os bebês tinham irmãos. Quando os pais dos trigêmeos cobraram explicações da agência de adoção sobre o fato de terem omitido essa informação, foram informados de que a separação foi mantida em sigilo devido às dificuldades de encontrar pessoas dispostas a adotar três bebês de uma vez.

Mas o objetivo real era viabilizar um projeto do psiquiatra de origem austríaca Peter Neubauer, que naquela época trabalhava para o Child Development Center.

O plano dele era pesquisar de que maneira a genética influencia no desenvolvimento de gêmeos que crescem em ambientes socioeconômicos distintos. Afinal de contas, o que tem mais impacto? Genética ou socialização? Os seres humanos são moldados pelo ambiente em que vivem ou é o DNA que determina quem são e quem se tornarão?

Para responder a essas perguntas, Neubauer e sua equipe monitoraram os jovens ao longo dos anos sem nunca revelar às famílias os verdadeiros motivos da investigação.

Quando finalmente os trigêmeos descobriram o plano secreto do psiquiatra, a partir de uma investigação de um jornalista da New Yorker, o criticaram duramente, classificando o estudo como cruel e comparando a pesquisa aos experimentos sociais promovidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

“Eles me seguiam quando eu era bebê e quando era criança. Um dia, disse à minha mãe que eu não gostava de ter essas pessoas me fazendo perguntas”, disse Robert. Os pesquisadores diziam aos pais dele que a pesquisa era sobre crianças adotivas, não sobre gêmeos.

“Não sei por que decidiram fazer isso. Não consigo encarar como algo humano. Não se pode brincar com vidas humanas assim. Tínhamos que estar juntos e nos separaram por motivos científicos”, critica Shafran.

Antes de morrer, em 2008, Neubauer deixou os detalhes da pesquisa guardados em arquivos da Universidade de Yale, com acesso restrito até 2065.

O diretor do documentário sobre os trigêmeos conta que o experimento foi inicialmente mantido em segredo para assegurar a eficácia dos resultados.

Um dos irmãos, Eddy, se matou em 1995 antes de descobrir a verdade. Quando as primeiras informações sobre essa pesquisa vieram à tona, alguns meses depois da morte de Eddy, “houve muita vergonha entre os que participaram do estudo, que passaram a tentar escondê-lo”, diz Wardle.

E a relação entre os dois irmãos que restaram esfriou ao longo dos anos. Quando eles foram procurados por Wardle para participar do documentário, hesitaram em aceitar. Foram necessários quatro anos para o produtor ganhar a confiança de Robert e David.

O resultado parece estar dando frutos. O documentário ganhou reconhecimento especial do júri no último festival Sundance.